A luz do corredor apagou às 22h. Carlos estava deitado no beliche de baixo, o colchão fino sob as costas, o travesseiro meio duro. O quarto estava escuro, só a luz fraca do relógio digital em cima da cômoda.
Ele não conseguia dormir.
Não era o ronco — dessa vez estava silencioso. Era o barulho de outra pessoa. O mochileiro do beliche de cima respirava fundo, se virava, o colchão rangendo. Do outro lado do quarto, alguém tossiu baixinho.
Carlos virou de lado. A laterais do beliche eram de madeira, estreitas. Ele se sentiu num caixote.
Cinco pessoas no mesmo quarto. Todas estranhas. Ele não sabia o nome de ninguém.
Pensou em levantar, ir para a sala. Mas aí faria barulho.
Ficou imóvel, olhando para o escuro. A janela estava semi-aberta, a cortina se movendo com o vento. Luz de poste entrava por uma fresta.
Ele respirou fundo. As pessoas eram só pessoas. Ninguém ia fazer nada. Era só um quarto. Um lugar pra dormir.
Fechou os olhos.
No dia seguinte, acordou com o sol entrando pela cortina e um dos mochileiros arrumando a mochila, cantarolando baixinho. O rapaz viu que Carlos tinha acordado.
— Bom dia — ele disse.
— Bom dia — Carlos respondeu, a voz grossa.
— Dormiu bem?
— Mais ou menos.
— Primeira vez em hostel?
— É.
— Na terceira noite você nem lembra que tem gente em volta.
Carlos sentou na cama, passou a mão no cabelo. Talvez ele tivesse razão.
*Continua em: livreto-596.md — Luísa — Como pedir silêncio no dormitório do hostel*