A sala comum do hostel estava cheia no fim de tarde. Três mochileiros jogavam cartas numa mesa redonda, um rapaz escrevia num caderno no sofá, e uma garota de cabelo curto pintado de azul estava na cozinha, esquentando água para chá.
Luísa ficou parada na porta, a caneca na mão. Não conhecia ninguém. Carlos estava no chuveiro.
Ela pensou em voltar para o quarto, ler no celular. Mas a luz da sala era boa, o sofá parecia confortável.
Sentou na ponta do sofá, perto do rapaz do caderno. Ele levantou os olhos por um segundo, sorriu, e voltou a escrever.
Cinco minutos se passaram. Luísa mexia no celular, mas não prestava atenção.
— É sua primeira vez num hostel? — a voz veio do lado.
Era a garota do chá, agora sentada na poltrona ao lado, a caneca fumegando entre as mãos. O cabelo azul contrasteava com a parede amarela.
— É — Luísa respondeu. — Tá na cara?
— Um pouco. — A garota sorriu. — Mas isso é bom. A gente lembra da primeira vez.
— Você viaja muito?
— Tô viajando há seis meses. América do Sul.
— Seis meses?
— É. Mochilão.
Luísa abaixou o celular.
— E como você faz pra conhecer gente nos lugares?
— Hostel é o melhor lugar. — A garota tomou um gole de chá. — Senta na sala, pergunta de onde a pessoa é, o que ela já visitou. É assim que começa.
— Simples assim?
— Simples assim. A maioria das pessoas também não conhece ninguém. Todo mundo quer conversar.
Luísa olhou em volta. Os rapazes do carteado riram de alguma coisa.
— Vou ali — ela disse, levantando.
Foi até a mesa de carteado.
— Posso ver como se joga?
Um dos rapazes, alemão pelo sotaque, puxou uma cadeira.
— Senta. A gente ensina.
Luísa sentou. Quando Carlos apareceu na porta do corredor, cabelo ainda molhado, ela estava rindo, o baralho na mão.
*Continua em: livreto-595.md — Carlos — Como dividir quarto de hostel com estranhos*