O avião estava com as luzes apagadas. A maioria dos passageiros dormia. Carlos estava com a cabeça inclinada contra a janela, o vidro frio na têmpora, o pescoço começando a doer.
— Meu pescoço vai travar — ele sussurrou.
— Pede um travesseiro — Luísa respondeu, os olhos fechados.
— Eles têm?
— Geralmente têm.
Ele hesitou por um minuto. As luzes apagadas, as pessoas dormindo. Chamar o comissário agora parecia um crime.
Ele apertou o botão de chamada assim mesmo.
Uma comissária veio pelo corredore na ponta dos pés, a luz de LED do painel iluminando o caminho.
— Pois não?
— Será que tem um travesseiro?
— Tenho sim. Vou pegar.
Ela voltou rápido com um travesseiro pequeno, envolto numa capa branca. Entregou para ele.
— Quer mais alguma coisa?
— Só isso. Obrigado.
Ela seguiu em frente, voltando para o posto.
Carlos colocou o travesseiro entre a cabeça e a janela. A espuma macia se ajustou ao formato do rosto. O vidro frio deixou de ser incômodo. Ele soltou o ar devagar.
— Melhor? — Luísa perguntou, ainda de olhos fechados.
— Muito.
Ela sorriu no escuro.
— Viu? Não doeu.
— Não doeu.
Ele fechou os olhos. O travesseiro era pequeno, de avião, mas era o suficiente para transformar uma posição desconfortável em algo quase bom.
*Continua em: 520 — Luísa — Como pedir fones de ouvido ao comissário?*