O ar-condicionado do avião estava forte. O vento gelado vinha da saída de ar acima do banco, um jato fino e constante. Luísa cruzou os braços e passou a mão no antebraço. A pele estava fria.
— Tá um freezer aqui — ela disse.
— É o ar-condicionado — Carlos respondeu. — Fecha a saída.
— Já fechei. Continua frio.
Ela olhou para o alto do avião, onde os compartimentos de bagagem se fechavam. Em alguns voos, os cobertores ficavam lá em cima, em pacotes lacrados. Mas não nesse.
Ela apertou o botão de chamada.
Uma comissária apareceu. Tinha o uniforme azul-claro, o cabelo preso, um sorriso educado.
— Pois não?
— O senhor tem cobertor? Tá muito frio aqui.
— Tenho sim. Vou buscar.
Ela foi para a parte de trás do avião e voltou segundos depois com um cobertor cinza, dobrado, dentro de um plástico transparente.
— Aqui. Se precisar de mais, é só pedir.
— Obrigada.
Luísa abriu o plástico e o cobertor se soltou. Era fino, de tecido sintético, mas já bastou para mudar a sensação. Ela estendeu sobre as pernas e puxou até o peito. O calor começou a voltar aos poucos.
— Por que você não pediu antes? — Carlos perguntou.
— Não queria incomodar.
— Mas estava com frio.
— Tava.
Ela se acomodou melhor no banco, o cobertor cobrindo o corpo até o pescoço. O frio do ar-condicionado ainda batia no rosto, mas o resto do corpo estava quente.
— Pedir é melhor do que tremer — ela disse.
Carlos riu.
— Grande lição de viagem.
— É a verdade.
Ela fechou os olhos, o cobertor subindo e descendo com a respiração. O barulho das turbinas virou um som de fundo, quase aconchegante.
*Continua em: 519 — Carlos — Como pedir travesseiro ao comissário?*