Como pedir refrigerante ao comissário?

Carlos

O avião estava no meio do voo. As nuvens passavam pela janela como algodão desfiado. Carlos estava com o dedo no botão da chamada de comissário, mas não apertava.

— O que foi? — Luísa perguntou.

— To pensando se peço um refri.

— É só apertar o botão.

— Eu sei. Mas parece que vou incomodar.

— É o trabalho deles.

Ele apertou o botão. Um som leve soou no painel. Uns trinta segundos depois, uma comissária apareceu no corredor. Ela tinha o cabelo preso num coque, o uniforme azul impecável, um microfone preso na gola.

— Pois não?

— Será que eu poderia pedir um refrigerante?

— Claro. Tem Coca-Cola, Sprite e Guaraná.

— Pode ser Guaraná.

— Gelo?

— Pode.

Ela voltou em menos de um minuto com uma lata de Guaraná e um copo com gelo. Colocou na bandeja dele.

— Se quiser mais, é só apertar o botão de novo.

— Obrigado.

Ela seguiu para o próximo passageiro que tinha apertado o botão.

Carlos abriu a lata. O gás escapou com um psiu baixo. Ele serviu no copo e o gelo tilintou.

— Ela não pareceu incomodada — ele disse.

— Óbvio que não. É o trabalho dela.

Ele bebeu um gole. O refrigerante gelado desceu bem, cortando o gosto seco que a viagem deixava na boca.

Apertar o botão. Fazer o pedido. Agradecer. Às vezes as coisas mais simples eram as que ele mais complicava.

*Continua em: 516 — Luísa — Como pedir café ao comissário?*