Dessa vez o tio Jairo foi além. Ele apareceu no porto do prédio sem avisar. Carlos desceu e encontrou o tio na calçada, braços cruzados, cara fechada.
— Precisamos conversar.
— Sobre o quê?
— Você andou me evitando. Não atende minhas ligações.
Carlos sentiu o medo velho voltar. O tio na frente dele, imponente, o dedo apontado.
— Não tô evitando, tio. Só tive minhas coisas.
— Suas coisas. Você sempre com suas coisas. Desde pequeno, sempre achando que sabe tudo.
O porteiro do prédio olhou. Um vizinho passou. Carlos sentiu o calor subir.
Ele respirou fundo.
— Tio, eu vou ser claro. Eu gosto da senhora. Mas não gosto de como a senhora fala comigo. Não gosto de críticas toda vez que a gente se vê. E não vou mais ouvir calado.
O tio Jairo ficou vermelho.
— Como você ousa?
— Com respeito. Mas com firmeza. A senhora pode não gostar. Mas essa é a minha vida. E as minhas decisões são minhas.
O silêncio durou segundos que pareceram horas.
— Você mudou — o tio disse, a voz mais baixa.
— Mudei, sim. E tô melhor.
O tio balançou a cabeça, virou as costas e foi embora sem dizer mais nada.
Carlos subiu. Quando entrou em casa, Luísa viu a cara dele.
— E aí?
— Falei.
— E?
— Não foi legal. Mas precisava.
Ele sentou no sofá e passou a mão no Toby, que veio deitar no colo. Não tinha sido uma conversa boa. Mas tinha sido verdadeira. E pela primeira vez, ele não tinha se encolhido.
*Continua em: 503 — Fazer união estável em cartório*