Toda vez que o tio Jairo ligava, Carlos sentia o mesmo aperto. A ligação durava quarenta minutos e deixava ele esgotado. O tio falava sem parar, criticava as escolhas dele — o emprego, o apartamento, o fato de não ter casado na igreja.
— Você precisa ouvir meus conselhos — o tio dizia. — Eu sou mais velho, sei da vida.
Carlos ouvia. Concordava pra não brigar. Desligava e ficava o resto do dia de mal humor.
Luísa percebeu.
— De novo o tio Jairo?
— Sim.
— O que ele falou?
— Que eu devia ter comprado uma casa em vez de alugar. Que não sei administrar dinheiro.
— E você acredita?
— Não. Mas incomoda.
Luísa sentou do lado.
— Você não precisa atender toda ligação. Não precisa ouvir tudo. E não precisa concordar.
Na ligação seguinte, Carlos fez diferente. Atendeu, ouviu cinco minutos, e quando sentiu o desconforto chegando, interrompeu.
— Tio, preciso desligar. Tenho um compromisso.
— Mas eu não terminei.
— Outro dia a gente conversa mais.
Ele desligou. O coração batia rápido. Mas passou. Não precisou de briga. Só de um limite claro.
Daquela vez, o resto do dia foi tranquilo.
*Continua em: 501 — Luísa — Como voltar a morar na mesma cidade que a família?*