A discussão com o Beto tinha sido idiota. Uma discordância sobre como dividir as contas do churrasco de família que escalou pra coisas antigas — "você sempre acha que sabe mais", "você nunca me ouviu mesmo".
Dois dias depois, Carlos ainda remoía.
Ele tava no sofá com o Toby no colo, passando a mão no pelo do cachorro sem prestar atenção.
— Vai ligar pra ele? — Luísa perguntou.
— Não sei.
— Fica pior quanto mais tempo passa.
Ele sabia que ela tava certa. Pegou o celular e mandou mensagem:
"Beto, tô em casa. Se quiser passar aqui ou eu ir aí."
Beto respondeu uma hora depois: "Posso ir aí."
Quando Beto chegou, ficaram na cozinha. Silêncio. O Toby latiu e quebrou o gelo.
— Desculpa — Carlos disse. — Fui grosso.
— Também fui.
— A conta do churrasco não era motivo pra tudo aquilo.
— Não era.
Eles ficaram quietos. Beto mexeu no copo d'água.
— É que às vezes parece que você acha que eu não sei fazer as coisas — Beto disse.
— Não acho isso.
— Parece.
Carlos respirou.
— Talvez eu fale num tom que soa assim. Mas não é. Juro.
Beto balançou a cabeça.
— Tá. Também juro que vou tentar não explodir.
Eles não se abraçaram — não eram desse tipo. Mas quando Beto foi embora, deu um tapinha no ombro do Carlos. Já valia.
*Continua em: 495 — Luísa — Como conversar com familiares sobre política sem briga?*