O chá de panela da prima da Luísa era o tipo de evento que ela evitava. Parentes que ela via uma vez por ano, conversas superficiais, e sempre alguém com uma opinião não solicitada.
Dessa vez, foi a tia Margarida.
— O Carlos não veio? — ela perguntou, sentando ao lado de Luísa.
— Ele ficou em casa. O Pedro tá com ele esse fim de semana.
— Ah, o enteado.
— O filho — Luísa corrigiu, suave.
— Filho... — a tia fez uma pausa. — E você, aguenta bem essa situação? Porque homem com filho de outro casamento é complicado, né?
Luísa sentiu o calor subir. A mão apertou a xícara.
— Tia Margarida — ela disse, colocando a xícara na mesa —, o Carlos é um pai presente. O Pedro é um menino incrível. E eu não sou "madrasta sofrida" — sou a madrasta que escolheu estar ali.
A tia arregalou os olhos.
— Mas eu só perguntei...
— E eu respondi. O Carlos é um ótimo companheiro. E a relação dele com o filho é uma das coisas que mais me fazem admirar ele.
Silêncio. A prima do lado tossiu e mudou de assunto. Luísa não gritou. Não se exaltou. Só deixou claro, com a voz calma, onde ficava o limite.
No caminho de volta pra casa, ela pensou na conversa. Não se arrependeu. Defender o Carlos não era sobre atacar a tia. Era sobre mostrar que ele tinha alguém do lado dele. Mesmo quando ele não tava ali pra ver.
*Continua em: 492 — Carlos — Como dizer não para um parente sem magoar?*