Como defender um irmão em uma discussão familiar?

Carlos

O almoço de domingo na casa de Dona Lúcia tinha clima pesado antes mesmo da comida chegar na mesa. Carlos sentiu quando entrou: o silêncio diferente, o olhar do Beto desviando, a Clarinha com o celular na mão sem olhar pra tela.

— O que houve? — Luísa perguntou baixo, enquanto pendurava a bolsa.

— Não sei.

Mas Dona Lúcia não demorou a soltar.

— A Clarinha vai largar a faculdade.

A frase caiu na sala como um copo quebrando. Carlos olhou pra irmã. Ela estava com os olhos fixos no chão, os ombros encolhidos.

— É verdade? — ele perguntou.

— Tô pensando — Clarinha respondeu, a voz pequena.

— Pensando nada — Beto cortou. — Você passou no vestibular com esforço, a mãe pagou cursinho, e agora vai jogar tudo fora?

— Beto — Carlos disse.

— O quê? Ela precisa ouvir.

— Ela precisa explicar, não ser atacada.

Beto bufou e cruzou os braços. Carlos se virou pra Clarinha.

— Fala, Clar. O que tá rolando?

Ela levantou os olhos. A voz saiu trêmula, mas firme.

— O curso não é o que eu queria. Eu entrei porque todo mundo falou que era bom. Mas não me vejo fazendo aquilo pro resto da vida.

— E o que você quer fazer? — Carlos perguntou.

— Design gráfico.

Beto riu.

— Design gráfico? Isso é profissão?

— É — Carlos respondeu antes da Clarinha abrir a boca. — A Luísa é designer e vive disso. E muito bem.

Beto franziu a testa.

— Tá defendendo ela?

— Tô defendendo ela ter o direito de decidir a vida dela. Ela não é mais criança. Se ela quer mudar de curso, a gente conversa, não grita.

A mesa ficou quieta. Dona Lúcia olhou pro prato. Beto não disse mais nada. E a Clarinha, do outro lado, olhou pro Carlos com um brilho no olho que ele não via desde que ela era pequena.

*Continua em: 491 — Luísa — Como defender o cônjuge em uma discussão familiar?*