Luísa encontrou Dona Marta no corredor do prédio às oito da noite. A vizinha de setenta anos acabava de regar as plantas da sacada e viu Luísa chegando com as compras.
— Minha filha! Tudo bem?
— Tudo, Dona Marta. E a senhora?
— Ah, tô aqui. Sabe que minha irmã ligou hoje...
Luísa sorriu e parou. As sacolas pesavam. O ânimo depois do expediente já tava no limite.
Dona Marta contou a história da irmã, do sobrinho que passou no concurso, do cachorro que tinha fugido e voltado sozinho. Luísa ouvia com a cabeça, mas o pensamento já tava no banho, na janta, no sofá.
Cinco minutos. Dez. Dona Marta não dava sinal de que ia parar.
Luísa podia fingir que ouviu um barulho. Podia dizer que tava com pressa e sair andando. Mas Dona Marta era uma senhora sozinha, e ela gostava dela.
— Dona Marta — Luísa disse quando a vizinha pausou pra respirar —, foi muito bom ouvir a senhora. Mas preciso subir, a janta ainda não saiu e o Carlos deve estar morrendo de fome.
— Claro, claro, minha filha. Vai, vai.
— Semana que vem a gente conversa mais. Prometo.
— Pode deixar. Vai com Deus.
Luísa subiu as escadas sentindo que não tinha sido rude. Agradeceu, explicou o motivo, prometeu continuar depois. Não precisou de desculpa. Só de um fechamento honesto.
Em casa, ela largou as sacolas na pia e sentou no sofá. Carlos trouxe um copo d'água.
— Demorou?
— Dona Marta.
— Ah. E você conseguiu sair?
— Consegui. Eu disse que precisava fazer janta.
— E ela?
— Entendeu. Foi de boa.
Carlos sentou do lado.
— Como você faz isso?
— O quê?
— Sair de conversa sem magoar a pessoa.
Luísa pensou.
— É só não fingir que você não quer sair. É mostrar que você gostou, mas tem um compromisso.
Carlos anotou mentalmente. Ela tomou um gole d'água e sentiu o peso do dia escorrer.
*Continua em: 487 — Carlos — Como admitir erro?*