Como admitir que não sabe fazer alguma coisa?

Carlos

A estante nova veio desmontada. Três caixas de papelão, cento e quarenta e duas peças, um manual que parecia planta baixa de navio. Carlos espalhou tudo na sala e ficou olhando.

— Precisa de ajuda? — Luísa perguntou da cozinha.

— Não, tranquilo.

Ela voltou pra panela. Carlos pegou a chave allen e começou. Parafuso A na furação B, encaixe C na ranhura D. Na terceira etapa, ele percebeu que tinha montado a base do lado errado.

Tentou desmontar. A peça não soltava.

Ele forçou mais um pouco. Nada.

Bufou. Passou a mão na nuca.

Luísa apareceu na porta.

— Deu certo?

— Tá encaixado errado — ele disse, a voz baixa.

— Desmonta então.

— Não consigo. A madeira já travou.

Ela se aproximou, olhou a peça, virou o manual.

— Aqui — ela apontou. — A furação é na peça B, não na A.

Carlos olhou. Ela tava certa. Ele tinha pulado uma linha do manual.

— É — ele disse. — Pulei sem querer.

— Acontece.

Ele ficou quieto. A vontade de ter feito sozinho ainda apertava. Mas admitir que errou foi mais rápido do que tentar esconder.

— Tudo bem — ele disse. — Vou desmontar e começar de novo.

— Chama quando precisar segurar alguma peça.

— Vou chamar.

Ele pegou a chave allen de novo e começou a desmontar. Dessa vez, leu o manual linha por linha. Não era difícil. Só exigia paciência — e coragem pra dizer "não sei".

*Continua em: 486 — Luísa — Como terminar uma conversa educadamente?*