A reunião no Zoom arrastava pela terceira hora. O cliente explicava o fluxo de aprovação do novo sistema e usava palavras que Luísa não ouvia desde a faculdade — "tokenização", "webhook reverso", "handshake de API".
Ela anotava tudo, mas as palavras entravam por um ouvido e saíam pelo outro.
— Então a integração vai rodar por esse middleware — o cliente disse —, e aí a gente faz o deploy na sexta.
Luísa olhou pra Camila do outro lado da tela. Camila tava com a cara mais neutra possível, mas a sobrancelha esquerda dela tava levemente levantada — o sinal de que também não tava entendendo nada.
— Certo — Luísa disse.
Ela odiava interromper. Odiava parecer que não tava acompanhando. Mas se não perguntasse agora, ia ter que fingir que entendeu pelo resto do projeto.
O silêncio se esticou.
— Luísa? — o cliente chamou. — Ficou claro?
Ela podia dizer "sim" e descobrir depois. Ou podia perguntar.
— Olha — ela disse —, deixa eu voltar uma parte. Quando você fala "middleware", é uma camada entre o nosso sistema e o banco, é isso?
O cliente piscou.
— Isso. Exatamente.
— E o deploy na sexta é do middleware ou da integração toda?
O cliente explicou de novo, mas dessa vez com palavras mais simples. Luísa anotou, entendeu, e quando ele terminou, ela mesma resumiu:
— Então na sexta sobe o middleware, e a integração completa fica pra semana seguinte.
— Fechou.
Camila apareceu no chat particular: "👏"
Depois da reunião, Luísa fechou o laptop e tomou um gole de café. Não tinha sido humilhante. Tinha sido normal. Perguntar não fez ela parecer burra. Fez ela parecer atenta.
*Continua em: 485 — Carlos — Como admitir que não sabe fazer alguma coisa?*