O estúdio tinha uma estagiária nova, a Isabela. Chegava cedo, saía tarde, fazia tudo com vontade. Mas Luísa notou que a menina parecia insegura. Não falava nas reuniões. Pedia desculpa antes de perguntar.
— Isa — Luísa chamou um dia. — Por que você sempre pede desculpa?
— Não sei. Acho que tô atrapalhando.
— Você não atrapalha. Você tá aprendendo.
Isabela sorriu sem graça.
— Eu queria ser que nem você — ela disse. — Segura. Decidida.
Luísa riu.
— Quer saber? Eu também fui assim. No começo, eu pedia desculpa até pra pedir café. Depois fui entendendo que lugar se conquista com presença, não com encolhimento.
— Como você fez?
— Me forcei a falar uma coisa por reunião. Só uma. Nem que fosse "bom dia". Depois de um tempo, virou duas. Depois, cinco.
Isabela anotou no caderno mental.
Na semana seguinte, na reunião de briefing, Isabela falou:
— Eu acho que a cor podia ser mais vibrante.
Silêncio. Luísa olhou para ela.
— Fala mais sobre isso.
Isabela explicou. A ideia era boa. Todo mundo concordou.
Depois da reunião, Luísa chamou a estagiária.
— Foi um bom palpite.
— Obrigada. Sua dica funcionou.
— Não foi dica. Foi você.
Isabela sorriu. O sorriso era diferente do de antes. Mais firme.
Luísa sentou na mesa e pensou: inspirar não era discursar. Era mostrar, sem querer mostrar. Era dar espaço, não palco. Era tratar o outro como capaz até que ele acreditasse.
*Continua em: 483 — Reclamar sem parecer grosseiro*