O almoço de família na casa do Beto estava animado. Todo mundo falando junto. Até que o tio Edson soltou:
— Esse negócio de pronome neutro... os jovens tão inventando moda.
Silêncio. A Clarinha, irmã do Carlos, baixou o garfo.
— Tio, não é moda — ela disse. — É identidade.
— Ah, mas também...
— Edson — a cunhada cortou. — Vamos mudar de assunto.
Mudaram. Mas Carlos viu o rosto da Clarinha. Ela não comeu o resto do almoço.
Depois, no carro, ele perguntou:
— Aquela história do tio Edson te incomodou?
— Incomodou. Mas ninguém fala nada.
— Eu podia ter falado.
— Mas não falou.
Ele ficou em silêncio. Tinha razão.
Na semana seguinte, no aniversário do Beto, o tio Edson voltou com o mesmo assunto. Dessa vez, Carlos falou antes da Clarinha.
— Tio, será que a gente pode deixar esse assunto de lado? A Clarinha já pediu uma vez.
O tio olhou para ele, surpreso.
— Tô só falando.
— Eu sei. Mas não é o momento.
O tio resmungou mas parou. A Clarinha olhou para Carlos por cima da mesa. Não disse nada. Mas o olho dela brilhou.
Ser aliado não era gritar. Era usar o próprio espaço para fazer o outro ser ouvido. E às vezes, só falar antes de quem precisa se defender.
*Continua em: 478 — Luísa — Como apoiar causas sociais nas interações?*