Como comparecer a um evento sozinho?

Carlos

Carlos estacionou o carro e ficou olhando pra entrada do salão. Casebre antigo no Centro, reformado, luzes de corda piscando na varanda. Era o aniversário de trinta anos do Ronaldo, um amigo da época da faculdade. A Luísa tinha ficado em casa com o Pedro, que estava com gripe.

— Você vai sozinho? — ela tinha perguntado.

— Vou.

— Vai ficar de boa?

— Vou.

Ele não estava tão seguro.

Dentro do salão, as pessoas estavam agrupadas em rodinhas. Todo mundo conhecido, mas ninguém próximo o suficiente pra ele chegar sem cerimônia. Pegou uma cerveja no balcão, tomou um gole. O líquido gelado desceu seco.

O Ronaldo apareceu do nada e deu um tapinha nas costas dele.

— Carlão! Chegou sozinho?

— A Luísa ficou com o menino.

— Pô, mas tá em casa. Vem, senta com a gente aqui.

Ronaldo puxou ele pelo ombro até uma mesa no fundo onde estavam o Marcelo e a Fernanda, um casal que ele lembrava vagamente da faculdade.

— Lembra deles? — Ronaldo perguntou.

— Claro. Marcelo, Fernanda. Tudo bem?

— Tudo — a Fernanda respondeu. — A gente tava falando justamente da época do trote. Lembra quando você desistiu de pintar o cabelo?

Carlos riu. — Lembro. Não tive coragem.

— Mas você foi o único que não fez. O resto da sala ficou careca.

A conversa fluiu. Uma cerveja virou duas, duas viraram três. Em algum momento, Carlos percebeu que estava contando uma história do trabalho e todo mundo na mesa estava rindo.

Quando olhou no relógio, eram onze e meia. A mesa tinha crescido. Ele conheceu duas pessoas novas, comeu uma porção de batata frita que chegou no meio da noite e esqueceu completamente que tinha entrado sozinho.

— Vou nessa — ele disse, se levantando.

— Já, Carlão? — Ronaldo perguntou.

— É, amanhã cedo tenho que levar o menino no futebol.

— Foi bom você vir, cara.

— Foi bom vir.

No carro, Carlos ligou o motor e sentiu o cheiro de fritura na roupa. Não era tão ruim ir sozinho. Era só chegar e deixar acontecer.

*Continua em: 448 — Luísa — Comportar-se em um evento corporativo*