Como lidar com conflitos familiares durante as festas?

Luísa

Luísa terminou de arrumar a mesa da sala. Toalha vermelha, pratos novos, guardanapos de pano. O cheiro do peru assando vinha da cozinha. Era ceia de Natal na casa da Dona Lúcia — e Luísa já sentia a tensão no ar antes mesmo da família inteira chegar.

— Ela vai trazer a farofa de novo — Dona Lúcia murmurou, olhando pela janela.

— Quem, mãe?

— Sua tia Ceição. Toda ceia ela traz farofa. Eu já faço farofa.

Luísa respirou fundo. A Dona Lúcia e a tia Ceição tinham uma rivalidade silenciosa desde o Natal retrasado, quando a tia comentou que o peru estava seco.

O interfone tocou. Era a tia Ceição.

Quando ela entrou com a travessa de farofa, Dona Lúcia forçou um sorriso e recebeu o prato.

— Que bom, farofa — ela disse, com um tom que não enganava ninguém.

— Fiz do jeito que meu pai gostava — a tia respondeu.

O clima pesou. Luísa viu o queixo do Carlos contrair. O Seu Antônio fingiu que não ouviu e foi servir um vinho.

— Tia Ceição, que lindo esse brinco! — Luísa disse, tocando no próprio brinco. — É novo?

A tia Ceição tocou na orelha. — Ganhei da minha filha. Ela foi viajar e trouxe.

— Combina muito com a senhora.

A tia sorriu. Dona Lúcia aproveitou a brecha.

— Ceição, me ajuda a temperar a salada? A receita que você me deu...

— Claro.

As duas foram pra cozinha. Luísa soltou o ar. Carlos se aproximou por trás.

— Como você fez isso?

— Desviei a atenção. Funciona sempre.

Ele beijou o ombro dela. Na cozinha, as duas riam de alguma coisa. A farofa ficou na mesa, um prato entre outros. Ninguém comentou o peru.

Luísa serviu o vinho e sentiu o gosto frutado na língua. A ceia podia começar.

*Continua em: 445 — Carlos — Confirmar presença em um evento*