Carlos apertou o nó da gravata e olhou para o salão. Luzes amarelas penduradas no teto, mesas redondas com toalhas brancas, um buffet de massas no canto. A Transportadora América completava vinte e cinco anos e o Carlos alugou um salão num clube da cidade.
— Você vai ficar na porta ou vai entrar? — a voz do Carlos veio de trás.
Carlos virou. O gerente estava de terno escuro, um copo de água na mão.
— Vou entrar.
— Então entra. Começa pelo buffet. Comida desarma qualquer conversa.
Carlos seguiu o conselho. Pegou um prato, serviu uma porção de talharim, e fingiu interesse na montagem do prato enquanto olhava o salão. Conhecia metade das pessoas ali. Gente de outros setores, rostos que via no corredor mas nunca trocava ideia.
— Carlos, certo? — uma mulher de blazer azul marinho se aproximou com um prato na mão. — Daiane, do RH.
— Isso, Carlos. Operações.
— Sei quem é. Você trabalha com o Mendes, né?
— Trabalho.
Ela sorriu. — O Mendes é brabo. Mas é justo.
— É. Aprendi muito com ele.
A conversa fluiu naturalmente. Ela falou do projeto novo do RH, ele comentou sobre a migração de sistema que a empresa tava fazendo. Em cinco minutos, Carlos percebeu que não estava mais ansioso. Estava só conversando.
No meio do salão, o Carlos levantou um copo e pediu atenção. Fez um discurso rápido — agradeceu a equipe, falou dos vinte e cinco anos, brindou. Todo mundo brindou junto. Carlos levantou o copo de água com gás e sentiu o gelo tilintar contra o vidro.
Quando o discurso acabou, a Daiane virou pra ele.
— Você conhece o pessoal do financeiro? Vou te apresentar.
— Vamos.
Carlos seguiu ela até uma mesa no fundo, o gosto do talharim ainda na boca. Não era tão difícil. Era só começar.
*Continua em: 444 — Luísa — Lidar com conflitos familiares durante as festas*