O workshop de acessibilidade no estúdio tinha sido ideia da Camila. Uma profissional veio dar uma palestra sobre design inclusivo. No intervalo, Luísa serviu café e viu uma moça de bengala branca parada perto da mesa de bebidas.
— Oi — Luísa disse. — Tem café, água e suco. O que você quer?
A moça virou o rosto na direção da voz.
— Café, por favor. Com um pouco de leite.
— Passo o leite primeiro ou o café?
A moça riu.
— Tanto faz.
Luísa preparou o café. Entregou na mão da moça.
— Tá aqui. A alça da xícara tá na sua mão direita.
— Obrigada. E obrigada por avisar onde está a alça. Muita gente entrega e não fala nada.
Luísa sentou ao lado.
— Meu nome é Luísa.
— Carol.
Carol tomou um gole.
— Tá bom o café.
— Obrigada. É da máquina do estúdio, não é granel.
Carol riu de novo.
— Você é a primeira pessoa hoje que me trata normal. As outras ou falam alto demais ou evitam falar comigo.
— Alto?
— É. Acham que se a pessoa não enxerga, também não ouve. Falam como se eu tivesse surda também.
Luísa assentiu, mesmo sabendo que Carol não via.
— O que mais as pessoas fazem que é estranho?
— Pegam no meu braço sem avisar pra me guiar. Ou falam "ali" e "lá" sem dizer onde é. Não adianta apontar se a pessoa não vê.
Luísa pensou nisso. Ela mesma tinha feito coisas assim sem perceber.
— O que eu deveria fazer?
— Falar. Como você fez. Perguntar o que eu quero. Me avisar antes de tocar. E não ter medo de palavras como "olhar" ou "ver". Eu uso essas palavras também.
O intervalo acabou. Luísa se despediu e voltou para o lugar. Carol também, a bengala tocando o chão com suavidade.
Na reunião, Luísa prestou mais atenção nas imagens do slide. Pensou em como descrever cada uma para quem não via. Não por obrigação. Porque comunicação era sobre incluir, não sobre facilitar para quem já estava incluído.
*Continua em: 441 — Carlos — Como lidar com a ansiedade social?*