O café da manhã de confraternização da empresa estava no salão do hotel. Mesas compridas, bule de café, bandejas de pão de queijo. Carlos pegou um prato e sentou numa mesa perto da janela.
Do outro lado, uma moça de cabelo cacheado fez um gesto com a mão. Uma colega respondeu com sinais rápidos. Libras. Carlos nunca tinha aprendido.
Ele ficou observando, fascinado. A moça ria enquanto os dedos dançavam. Parecia uma conversa normal, mas sem som.
No meio do café, a moça apontou para o bule de café e depois fez um gesto perguntando. A colega balançou a cabeça e apontou para o suco. A moça cacheada levantou, foi até a mesa de bebidas e voltou com um copo de suco.
Carlos pensou em tentar puxar conversa. Mas como? Ele não sabia Libras. Ia escrever no celular? Falar devagar?
Enquanto pensava nisso, a moça sentou de novo e derrubou o copo. O suco se espalhou pela mesa. Ela fez uma expressão de frustração e tentou conter o líquido com guardanapos.
Carlos levantou rápido, pegou um monte de guardanapos no balcão e levou até ela. Colocou os guardanapos perto da poça.
— Aqui — ele disse.
Depois percebeu que ela não tinha ouvido.
A moça olhou para ele, depois para os guardanapos. Sorriu. E fez um sinal com a mão. Centro dos dedos no queixo, movendo para frente.
Carlos não entendeu. Ela repetiu, mais devagar. Ele balançou a cabeça, sem saber. Ela pegou o celular, digitou e mostrou a tela:
"OBRIGADA"
— Ah! De nada.
Ele pegou o celular dele e escreveu: "Desculpa, não sei Libras."
Ela leu e escreveu: "Tudo bem. Você ajudou."
Carlos sorriu. Ela continuou: "Quer aprender um sinal?"
Ele assentiu. Ela mostrou: palma da mão no peito, movendo em círculo. Depois apontou para ele.
Ele repetiu o gesto. Ela sorriu e digitou: "OBRIGADO. É assim que se fala."
No fim do café, Carlos sabia cinco sinais. Não era muito. Mas era o começo. Ele percebeu que comunicação não era só sobre falar a mesma língua. Era sobre encontrar um jeito de se conectar.
*Continua em: 440 — Luísa — Como se comunicar com uma pessoa cega?*