Como conversar com adolescentes?

Luísa

Pedro estava deitado no sofá, os olhos grudados na tela do celular, os fones de ouvido enfiados nas orelhas. Os dedos deslizavam rápidos pela tela. Luísa entrou na sala com um prato de bolo.

— Pedro.

Nada.

— Pedro!

Ele levantou a cabeça, tirou um fone.

— Fala.

— Bolo?

Ele olhou para o prato, deu de ombros.

— Depois.

Colocou o fone de volta.

Luísa ficou parada no meio da sala com o prato na mão. Duas semanas atrás, Pedro tinha respondido "nossa, bolo!" e comido três pedaços. Agora era como se ela falasse grego.

Ela sentou na poltrona ao lado e esperou. Não disse nada. Só ficou ali.

Depois de um minuto, Pedro tirou os fones.

— Tá olhando o quê?

— Nada. Só sentei.

— Você quer falar alguma coisa?

— Não. Só tô aqui.

Pedro franziu a testa. Colocou o celular de lado.

— Tá, fala.

— Não tenho nada pra falar. Juro. Só vim comer bolo.

Ela mordeu um pedaço. Pedro observou. Depois pegou outro pedaço.

— O bolo tá bom — ele disse.

— Sei.

— Foi você que fez?

— Foi.

— Ficou bom mesmo.

Luísa mastigou devagar. Percebeu que não precisava puxar assunto. Não precisava perguntar da escola, dos amigos, da vida. Só precisava estar perto. O adolescente falava quando sentia segurança, não quando era pressionado.

Depois do bolo, Pedro levantou.

— Vou jogar um pouco. Quer ver?

— Ver?

— É. Jogar. Tem dois controles.

Ela sorriu.

— Nunca joguei direito.

— Eu ensino.

Enquanto aprendia a apertar os botões, Luísa pensou que conversar com adolescente não era sobre falar. Era sobre estar disponível. E esperar.

*Continua em: 439 — Carlos — Como se comunicar com uma pessoa surda?*