Carlos estava na fila da farmácia quando viu uma senhora tentando ler o rótulo de um remédio. Ela apertava os olhos, afastava a caixa, aproximava. Nada.
— A senhora precisa de ajuda? — ele perguntou.
Ela virou o rosto. Tinha os olhos azuis claros e a pele cheia de rugas finas.
— Tô tentando ver a dose, meu filho. Mas essa letra é pequena demais.
Carlos pegou a caixa.
— É dipirona. Quarenta gotas.
— Ah. Obrigada.
Ele podia ter entregado a caixa e seguido. Mas tinha tempo. E a senhora parecia perdida.
— A senhora mora perto?
— Moro. Sozinha. O filho vem uma vez por mês.
Ela falou como se isso fosse normal. Como se morar sozinha aos oitenta e dois anos fosse a coisa mais natural do mundo. Carlos pensou na mãe dele, Dona Lúcia. Sozinha também, desde que o pai morreu.
— Deve ser difícil — ele disse.
— É o que é. A gente se acostuma.
Ele ouviu. Sem pressa. Enquanto esperava o atendente chamar a senha, ela contou que o marido tinha morrido há dez anos, que o filho morava em outro estado, que as pernas doíam quando esfriava. Carlos não deu conselho. Não disse "devia ir morar com ele" ou "que absurdo". Só ouviu.
— Desculpa falar tanta coisa — ela disse. — É que quase ninguém pergunta.
— Não precisa se desculpar.
O atendente chamou a senha dela. Ela se despediu com um sorriso que não tinha dente na frente. Carlos ficou segurando a vez dele, pensando no que tinha acontecido.
Mais tarde, ele ligou para a mãe.
— Oi, mãe. Só pra saber como a senhora tá.
— Tô bem, filho. Que surpresa boa.
— A senhora tá com saudade?
— Sempre, meu amor.
Carlos sentiu o peso. Conversar com idosos não era sobre falar devagar ou usar tratamento formal. Era sobre dar tempo. Deixar eles falarem no ritmo deles. Perguntar e esperar a resposta.
Ele prometeu ligar mais vezes.
*Continua em: 438 — Luísa — Como conversar com adolescentes?*