Como lidar com um amigo fofoqueiro?

Carlos

O almoço do futebol era no mesmo boteco de sempre. Mesa de madeira, cerveja gelada, torresmo crocante. Carlos, André, Rafael e o Márcio.

Márcio era o mais animado do grupo. Também o que mais falava da vida dos outros.

— Cê soube que o João do RH separou? — Márcio disse, inclinando o corpo sobre a mesa. — Ela meteu o pé. Ele ficou destruído.

— E você sabe disso como? — Carlos perguntou.

— A prima da ex-mulher do primo dele trabalha comigo. Contou tudo.

André riu. Rafael balançou a cabeça.

— Coitado do João — Rafael disse.

— Coitado nada — Márcio continuou. — Disseram que ele tava saindo escondido.

Carlos tomou um gole de cerveja. Sentiu o desconforto. Não conhecia o João direito, mas imaginava como se sentiria se fosse ele a pauta do almoço.

Na semana seguinte, Márcio chegou com outra história. Dessa vez sobre o chefe de um amigo do irmão dele. Carlos ouviu até o fim, mas não comentou.

— Você não falou nada — Márcio notou.

— Não sei o que falar. Não conheço a pessoa.

— Mas é engraçado.

— É?

Márcio desviou o olhar, pegou o copo.

No caminho de volta, André puxou assunto no carro.

— O Márcio é foda. Sabe de tudo.

— Sabe. Mas não sei se é bom saber tanto da vida dos outros.

André pensou por um segundo.

— É, tem razão.

Dias depois, Carlos e Márcio se encontraram sozinhos na fila do mercado. Márcio começou a falar de um colega de trabalho. Carlos cortou.

— Márcio, deixa eu te falar uma parada. Você é um cara legal. Mas essas histórias dos outros me deixam desconfortável. Não precisa parar de contar. Mas comigo, pode deixar de fora.

Márcio ficou vermelho.

— Tá, foi mal. É que o pessoal gosta.

— Talvez o pessoal goste. Mas não sei se é bom pra ninguém.

Márcio não respondeu. Mas nas semanas seguintes, Carlos percebeu que ele falava menos fofoca na mesa. Não sumiu de vez. Mas diminuiu.

Carlos pensou que não precisava cortar amizade. Só precisava mostrar que aquele assunto não tinha vez com ele.

*Continua em: 436 — Luísa — Como se afastar de uma fofoca?*