A amiga dela, Júlia, tinha contado uma coisa no sábado. No meio de um café no shopping, depois de uma hora de conversa fiada, Júlia baixou a voz e disse:
— O Pedro terminou o tratamento. Mas se minha mãe souber, ela surta. Eu não vou contar pra ela agora.
Luísa concordou com a cabeça. Claro, segredo guardado.
Só que o segredo não saía da cabeça dela.
Na segunda, no trabalho, ela ficou com o olhar perdido no monitor. As camadas do arquivo do Illustrator se misturavam na tela. Ela pensava na Dona Margô — a mãe da Júlia — que no almoço de domingo tinha perguntado "e a Júlia, como é que tá?" com aquele olhar de preocupação que mãe tem.
— Você tá estranha — Camila disse, empurrando uma caneca de café na direção dela.
— Tô pensando numa coisa.
— Conta.
— Não posso.
Camila ergueu as sobrancelhas mas não insistiu.
Na terça, Luísa quase contou para a própria mãe. Só para aliviar. Mas parou no meio da frase: "Mãe, a senhora sabe o que a Júlia me contou..." Não. O segredo não era dela.
Quarta-feira, ela ligou para Júlia.
— Olha, não vou te pedir pra contar pra sua mãe. Mas esse segredo tá pesando em mim. Você tem com quem conversar sobre isso?
Júlia ficou em silêncio.
— Tô fazendo terapia — ela disse. — É por isso que pedi pra você não contar. A terapeuta disse pra esperar o momento certo pra falar com a minha mãe.
— Ah.
Luísa sentiu o peso diminuir. Não porque o segredo deixou de existir. Porque entendeu que não era sobre ela carregar. Era sobre confiar que a amiga sabia o que fazia.
— Então tá. Quando quiser falar sobre isso, estou aqui.
— Obrigada.
Na sexta, Luísa almoçou com a mãe. Dona Margô perguntou pela Júlia de novo. Dessa vez, Luísa não se sentiu culpada por não contar.
— Ela tá bem, mãe. Tá se cuidando.
Era verdade. Não precisava do resto.
*Continua em: 433 — Carlos — Como pedir sigilo sobre algo?*