Carlos estava deitado no sofá com o Toby aos pés quando o celular vibrou. Era o André.
— Preciso falar uma coisa. Mas não pode contar pra ninguém.
— Pode falar — Carlos respondeu, a voz baixa.
André ia pedir a namorada em casamento. Tinha o anel guardado no fundo da gaveta de meias. Ia fazer no aniversário de dois anos, numa viagem surpresa.
— Se eu contar pra alguém, ela descobre. Você é o único que sabe.
— Tá guardado.
Desligou.
Na mesma noite, Carlos foi para o quarto e Luísa estava na cama lendo.
— O André ligou hoje — ele disse.
Ela ergueu os olhos do livro.
— Ah, é? Tudo bem?
— Tudo.
Ele parou. A informação estava na ponta da língua. Contar para Luísa não era trair o André — ela era a esposa, quase tão amiga do André quanto ele. Mas o André tinha pedido sigilo.
— Só ligou pra saber de uma coisa — Carlos completou.
Luísa assentiu e voltou ao livro.
Na quinta-feira, no futebol com os amigos, o assunto foi namoro. O Rafael comentou que o André estava estranho, que devia estar com problemas no relacionamento.
— Cê sabe de alguma coisa, Carlão? — Rafael perguntou.
Carlos sentiu a pressão. Rafael era amigo, estava preocupado. Uma mentirinha resolveria.
— Não sei, cara. Ele não falou nada comigo.
Rafael deu de ombros e o assunto morreu.
No sábado, o André apareceu em casa com uma cerveja e um sorriso.
— Você não contou pra ninguém, né?
— Não contei.
— Nem pra Luísa?
— Nem pra Luísa.
André abriu a lata, os olhos brilhando.
— Valeu, cara. É que se ela descobre antes, perde a graça. Você é o único que sabe. Isso significa muito.
Carlos tomou um gole da cerveja e pensou: guardar segredo não era difícil. O difícil era calar a boca quando a língua coçava. E o que segurava a língua era saber que a confiança do outro valia mais que o prazer de contar.
*Continua em: 432 — Luísa — Como lidar com um segredo que te pesa?*