O chá estava esfriando na xícara. Dona Margô estava sentada no sofá da sala, as mãos no colo, o olhar perdido no quadro abstrato que Luísa tinha pendurado na parede.
— Sentei com a Lúcia ontem — Dona Margô disse. — Ela me contou que o Carlos anda estressado com o trabalho.
Luísa mordeu a língua. A vontade de falar era enorme. Ela queria dizer que o Carlos estava bem, que quem estava estressada era ela com o prazo do estúdio, que a Lúcia era uma fofoqueira de merda, que...
— É — ela disse.
Só isso.
Dona Margô esperou. Luísa sentiu o silêncio crescer. Na cabeça, as frases se acumulavam: "mas ele tá bem, o problema é que a Lúcia exagera", "a senhora sabe como é sogra", "na verdade quem tá sobrecarregada sou eu". Nada disso passou pela boca.
— A senhora acha que ele tá estressado? — Luísa perguntou.
Dona Margô virou o rosto.
— Acho que todo mundo fica, filha. Mas ela é mãe. Preocupa à toa.
— É.
Outro silêncio. Dessa vez mais leve.
Luísa pensou nas vezes que tinha se arrependido de falar. Na reunião com cliente, quando soltou uma opinião sobre o logo que magoou a estagiária. No jantar com a família do Carlos, quando comentou sobre política e viu o tio dele fechar a cara. Falar era natural nela. Calar era o exercício.
— A senhora quer mais chá?
— Quero.
Luísa levantou e foi até a cozinha. Enquanto esquentava a água, pensou na diferença. Falar era impulso. Calar era escolha. E escolha exigia pausa.
Ela voltou com a xícara cheia. Sentou. Dessa vez escolheu o silêncio de novo. A mãe dela não precisava de opinião. Só de companhia.
Antes de ir embora, Dona Margô beijou a testa da filha.
— Você tá mais calada hoje.
— Tô.
— Faz bem de vez em quando.
Luísa sorriu. Naquela noite, deitada, ela pensou que não era sobre falar menos. Era sobre escolher quando cada palavra valia a pena.
*Continua em: 431 — Carlos — Como guardar segredo de um amigo?*