Como pedir desculpas por interromper?

Carlos

A reunião semanal de equipe se arrastava. Carlos estava no canto da mesa, o notebook aberto, tomando notas. O Jorge, do almoxarifado, explicava um problema com a contagem de estoque.

— ...e aí a gente percebeu que os itens devolvidos não estavam sendo registrados no sistema antes de voltar pra prateleira...

Carlos sentiu a resposta na ponta da língua. Ele sabia o motivo. Tinha visto o relatório na semana passada. A vontade de falar crescia dentro do peito.

— Mas isso acontece porque o sistema não atualiza o status do item quando...

Ele falou por cima do Jorge. A frase saiu antes de pensar. Jorge parou no meio da palavra, os olhos arregalados.

— ...quando o pedido é cancelado. — Carlos terminou. Depois percebeu o que tinha feito.

— Desculpa, Jorge. Te interrompi. Fala.

Jorge hesitou.

— Não, pode falar.

— Não, fala. Você tava explicando. Eu cortei você. Fala o que ia dizer.

Jorge pigarreou e continuou, mas o ritmo tinha quebrado. Carlos sentiu o peso. Não era a primeira vez. Ele fazia isso quando estava ansioso, quando queria mostrar que sabia a resposta. Mas o resultado era sempre o mesmo: a outra pessoa se sentia cortada, menos importante.

Terminada a reunião, Carlos foi até a mesa do Jorge.

— De novo te interrompi. Desculpa mesmo.

O Jorge olhou para ele.

— Tudo bem.

— Não tá. Você tava no meio da explicação e eu cortei pra dar a resposta. O que você ia dizer?

Jorge coçou a nuca.

— Ia dizer que o setor de vendas não tava avisando quando um pedido era cancelado. O sistema não tem culpa.

— Então a gente precisa alinhar com vendas. Não é problema do sistema.

— Exato.

Carlos assentiu. Se tivesse esperado mais cinco segundos, teria ouvido a explicação completa. A pressa de responder tinha tirado o contexto.

— Na próxima, se eu te interromper de novo — Carlos disse —, me corta.

Jorge sorriu.

— Pode deixar.

No caminho de volta para o escritório, Carlos pensou que pedir desculpas por interromper era simples. O difícil era lembrar de esperar antes de falar.

*Continua em: 430 — Luísa — Como saber quando falar e quando calar?*