Como desenvolver a escuta ativa?

Luísa

O telefone vibrou na mesa do estúdio. Era a mãe. Luísa atendeu com uma mão no mouse, a outra segurando o telefone no ombro.

— Oi, mãe.

— Oi, filha. Tô ligando porque...

— Mãe, espera um pouquinho. Só vou responder um e-mail rápido.

Ela clicou em enviar enquanto a mãe falava. Não ouviu o que era. Ouviu o som da voz, o ritmo, mas não as palavras.

— ...aí eu falei pra Margô que não ia dar certo, mas ela insistiu...

— Hum.

— ...e agora ela tá arrependida, claro.

— Hum hum.

— Luísa?

— Fala, mãe.

— Você tá ouvindo?

— Tô, ué.

— O que eu acabei de falar?

Luísa parou. A mão congelou no mouse. Ela não sabia. Tinha ouvido o nome Margô, arrependida, mas não sabia o contexto.

— Desculpa, mãe. Fala de novo.

A mãe riu do outro lado, sem graça.

— Tudo bem, filha. Depois a gente conversa quando você estiver livre.

Desligou.

Luísa ficou olhando para o telefone. A mãe não estava brava. Estava acostumada. E isso era pior.

Ela apoiou os dois cotovelos na mesa e esfregou o rosto com as mãos. Quantas vezes fazia isso? Respondia no automático enquanto pensava em outra coisa. Dizia "hum hum" sem realmente escutar.

Naquela noite, em casa, Carlos estava contando sobre a apresentação do trabalho. Ela sentou no sofá ao lado dele e colocou o celular virado na mesa de centro, a tela para baixo.

— Você não precisa guardar o celular — ele disse.

— Quero ouvir direito. Fala de novo a parte do Carlos.

Carlos contou sobre o palco, o slide preto, o suor nas mãos. Luísa ouviu sem interromper. Quando ele terminou, ela esperou três segundos antes de responder.

— Você ficou nervoso?

— Muito.

— E o que você fez?

— Respirei. Lembrei do que você falou.

Ela não deu resposta pronta. Não disse "então, da próxima vez faz assim". Ela só assentiu e deixou ele continuar.

No dia seguinte, Luísa ligou para a mãe de novo. Dessa vez estava sentada, sem celular na mão, sem computador ligado.

— Fala, mãe. Tô ouvindo.

A mãe contou sobre a Margô, sobre a reforma que não saía, sobre o dinheiro que tinha sido gasto à toa. Luísa ouviu até o fim. No final, disse:

— Que chato, mãe. Ela deve estar frustrada.

— Tá sim. E eu não sei o que falar pra ela.

— Às vezes não precisa falar nada. Só ouvir.

A mãe ficou em silêncio por um instante.

— É mesmo. Obrigada, filha.

Depois de desligar, Luísa percebeu: escutar ativamente não era sobre técnica. Era sobre estar presente. E isso era mais difícil do que parecia.

*Continua em: 429 — Carlos — Como pedir desculpas por interromper?*