O auditório tinha quarenta cadeiras ocupadas. Quarenta. Carlos contou três vezes quando entrou. Gente sentada, gente mexendo no celular, uma senhora na primeira fila com um caderno aberto esperando.
Era a apresentação do projeto novo. O Carlos tinha pedido para ele mostrar os resultados do trimestre para a equipe. Não era uma plateia hostil. Eram colegas. Mas o coração de Carlos batia tão forte que ele sentia o pulso nos dedos.
Ele subiu no palco pequeno, colocou o pendrive no notebook e esperou o slide carregar. A tela ficou preta por três segundos que pareceram três horas.
— Então... — ele começou.
A voz saiu fina. Ele pigarreou.
— Esse trimestre a gente... a gente teve um aumento de...
Ele olhou para os slides. As palavras estavam todas lá, mas os olhos dele não conseguiam focar. Passou a mão na nuca, o gesto de sempre. Luísa estava na terceira fila, ele tinha visto antes de começar. Ela sorriu. Um sorriso pequeno, só para ele.
Carlos respirou fundo. Lembrou do que ela tinha dito no café da manhã: "Você não precisa impressionar ninguém. Só precisa contar o que você fez."
— Aumento de doze por cento na produtividade do setor — ele disse, mais devagar. — A gente mudou o fluxo de conferência dos pedidos.
Ele olhou para a plateia. Não para todos. Para um rosto de cada vez. A senhora do caderno anotava. Um rapaz de barba assentiu. Carlos, no fundo, com os óculos na ponta do nariz, sem expressão.
— O que mais funcionou foi a integração com o sistema de notas. Antes, cada um conferia separado. Agora o sistema cruza os dados antes de a gente revisar.
A voz foi ficando mais firme. As mãos pararam de tremer. Ele não era um orador. Não precisava ser. Só precisava falar do que conhecia.
No final, quando perguntaram se tinha dúvidas, três pessoas levantaram a mão. Ele respondeu cada uma. A última pergunta veio do Carlos:
— Isso que você apresentou, daria pra replicar no setor de logística?
Carlos pensou. Não tinha preparado essa resposta.
— Acho que sim — ele disse. — Com ajustes.
Carlos assentiu. Um movimento pequeno, quase imperceptível. Mas Carlos viu.
Depois, descendo do palco, Luísa esperava perto da porta.
— Suou?
— Suou.
— Mas ninguém percebeu.
Carlos olhou para trás, para o palco vazio. O medo não tinha sumido. Só tinha ficado menor do que a vontade de falar.
*Continua em: 428 — Luísa — Como desenvolver a escuta ativa?*