Como estabelecer contato visual?

Luísa

O restaurante estava cheio. Não dos barulhentos, mas daquele tipo de lotação silenciosa em que todo mundo fala baixo e os talheres tilintam contra a porcelana. Luísa estava sentada de frente para a sócia de uma cliente nova, uma mulher de blazer bege que não parava de olhar para o prato enquanto falava.

— Nosso estúdio trabalha com identidade visual há seis anos — Luísa disse. — A Camila é sócia, eu cuido da parte criativa...

A mulher, Roberta, levantou os olhos por um segundo, assentiu, e voltou a olhar para a salada. Luísa percebeu que ela mesma estava fazendo a mesma coisa. Olhando para a taça de água. Para o guardanapo. Para o cardápio. Em qualquer lugar menos nos olhos de Roberta.

Camila, ao lado, era o oposto. Falava com os olhos fixos na interlocutora, as mãos gesticulando, o cabelo roxo balançando. Ela parecia segura, mesmo quando falava bobeira.

— A gente fez um projeto parecido com o da sua empresa ano passado — Camila disse, os olhos nos olhos de Roberta. — Um estúdio de fotografia. Ficou lindo.

Roberta sorriu. Dessa vez sustentou o olhar por dois segundos antes de desviar.

Luísa sentiu um aperto. Ela sabia falar. Sabia se comunicar. Mas quando precisava manter contato visual, sentia como se estivesse invadindo um espaço que não era dela. Como se olhar nos olhos por tempo demais fosse exigir algo da outra pessoa.

No meio do prato principal, a conversa ficou mais pessoal. Roberta contou que estava abrindo o negócio depois de vinte anos em outra área. Disse isso com os olhos baixos, como se confessasse vergonha.

— Coragem — Luísa disse.

Roberta ergueu o olhar.

— Desculpa?

— Coragem. Recomeçar depois de vinte anos. É mais difícil do que começar do zero.

Dessa vez Luísa não desviou. Segurou o olhar de Roberta enquanto falava. Não foi agressivo. Foi como abrir uma porta e esperar a pessoa atravessar. Roberta sustentou o olhar de volta. Os olhos dela estavam marejados.

— Obrigada — ela disse.

Depois do encontro, no carro, Camila ligou o som baixo.

— Você viu que ela mal olhava pra gente no começo?

— Vi.

— E no final, não parava de olhar.

Luísa pensou no que tinha mudado. No começo, ela também desviava. Mas quando falou sobre coragem, esqueceu de desviar. Não porque tentou. Porque o que disse era verdade e ela quis que Roberta soubesse.

— Não é sobre olhar fixo — ela disse, mais para si mesma. — É sobre querer que a pessoa te veja de verdade.

*Continua em: 425 — Carlos — Como apresentar duas pessoas?*