A tela do notebook estava acesa há vinte minutos. O cursor piscava no canto superior esquerdo, paciente, esperando. Carlos estava com a caneca de café na mão, o olhar fixo na linha de assunto vazia.
— Ainda não escreveu? — Luísa passou pela sala com a toalha no ombro, o cabelo ainda úmido do banho.
— Não sei por onde começar.
O e-mail era para o tio Antônio, irmão do pai. Não viam havia dois anos, desde o enterro. O tio tinha mandado uma mensagem pelo Facebook perguntando como Carlos estava, e Carlos queria responder direito, não com um "tudo bem, e você?" de cinco palavras.
— Você escreve e-mail de trabalho todo dia — Luísa disse, sentando no braço do sofá.
— É diferente. E-mail de trabalho tem formato. Eu sei o que esperar. Saudação, contexto, pedido, despedida. Pronto.
— E pessoal?
— É aberto. Muito aberto.
Carlos olhou para a tela de novo. Lembrou da última vez que viu o tio Antônio. O velório do pai. O tio apertou a mão dele e disse "se precisar de alguma coisa, cê sabe onde me encontrar." Carlos nunca ligou. Não por falta de vontade. Por não saber o que dizer.
Ele apoiou os cotovelos na mesa e começou a digitar:
"Prezado tio Antônio..."
Apagou.
"Olá, tio Antônio..."
Apagou de novo.
— Qual é a parte mais difícil? — Luísa perguntou.
— O tom. Muito formal parece que é cobrança. Muito informal parece que não ligo.
— E o que você quer dizer pra ele?
Carlos pensou. A cozinha do pai. O tio Antônio sentado à mesa, tomando café com o irmão, rindo de alguma história de infância. Os dois irmãos, um ao lado do outro, falando ao mesmo tempo, se interrompendo, se corrigindo. O cheiro de café passado e pão na chapa.
— Quero que ele saiba que lembro dele. Que não é por mal o silêncio. Que eu sou ruim de manter contato mas não é falta de consideração.
— Então escreve isso.
Carlos virou para o teclado. Respirou fundo. Digitou:
"Oi, tio. Desculpa a demora pra responder. Não é por falta de consideração — sou péssimo de escrever, mas pensei no senhor esses dias. Lembrei do café na cozinha com o pai. Espero que esteja bem. Vamos marcar um almoço qualquer hora."
Ele leu em voz alta. Leu de novo. Ajeitou o "pensei" para "tenho pensado" e trocou "qualquer hora" por "um dia desses".
— Ficou mais você? — Luísa perguntou.
— Ficou.
— Então manda.
Carlos clicou em enviar antes de pensar demais. Cinco minutos depois, o celular vibrou. Era o tio Antônio:
"Que bom receber sua mensagem, menino. Lembro desse dia também. Vamos marcar sim. Beijo no coração."
Carlos apoiou a cabeça no encosto da cadeira. O medo era de escrever errado. No fim, só precisava escrever o que sentia.
*Continua em: 424 — Luísa — Como estabelecer contato visual?*