O relatório tinha sido enviado às três da tarde. Às cinco, o Carlos respondeu: "Vou precisar revisar com calma."
Carlos leu a frase cinco vezes. "Vou precisar revisar com calma." A voz na cabeça dele leu num tom grave, desanimado, como se o chefe estivesse decepcionado.
Ele ficou remoendo. Será que o relatório estava ruim? Será que ele ia ter que refazer tudo? Será que o Carlos estava com raiva?
Chegou em casa e foi direto pro quarto, deitou na cama, o celular na mão, relendo a mensagem.
Luísa entrou.
— Você tá estranho.
— O Carlos respondeu.
— E?
— Ele disse que vai revisar com calma.
— E?
— Parece que não gostou.
— Ele falou que não gostou?
— Não.
— Ele deu algum sinal? Alguma crítica?
— Não.
— Só disse que vai revisar.
— É.
— E você já tá pensando que é crítica?
— Tô.
Luísa sentou na cama.
— Você já pensou que "revisar com calma" pode ser só... revisar com calma? Porque ele tá ocupado, porque quer fazer uma revisão cuidadosa, porque é o trabalho dele?
Carlos ficou em silêncio.
— É — ele disse. — Eu tô lendo com o medo, não com o texto.
— Exato. O tom que você ouve na sua cabeça não é o tom da pessoa. É o tom da sua ansiedade.
— Como eu paro com isso?
— Primeiro, para de ler mensagem de trabalho depois das seis. Segundo, quando você sentir que o tom é negativo, pergunta antes de sofrer.
No dia seguinte, Carlos foi falar com o Carlos.
— Sobre o relatório… o senhor viu algum problema?
Carlos ergueu os olhos.
— Não. Por quê?
— Sua mensagem ontem parecia... não sei.
— Parecia o quê?
— Preocupada.
Carlos riu baixinho.
— Tava no meio de três reuniões. Li rápido e respondi que ia revisar com calma porque é o que vou fazer. Não tem problema nenhum.
— Ah. Tá bem.
— O relatório tá bom, Carlos.
Ele voltou pro lugar aliviado. A mensagem era neutra. A ansiedade é que tinha pintado de cinza.
*Continua em: 422 — Luísa — Como evitar parecer agressivo em mensagens?*