Como lidar com o cancelamento nas redes?

A notificação chegou no meio da tarde. Uma marcação no Twitter. O estúdio Cria tinha sido mencionado numa thread: "Essa agência fez um trabalho pra uma marca que tem histórico de greenwashing."

Luísa leu parada na frente do monitor. A tela do computador refletia o rosto dela, sem expressão.

Camila se aproximou.

— Viu?

— Vi.

— Tão falando que a gente fez trabalho pra uma empresa que polui o rio.

— A gente fez o site deles. Um site institucional. Não o produto.

— Mas nas redes não importa. A associação já é o bastante.

Luísa sentou. Pegou o celular. A thread já tinha cento e vinte comentários. Pessoas pedindo explicação, outras pedindo boicote. Algumas — as piores — torcendo pela humilhação.

— O que a gente faz? — Camila perguntou.

— Primeiro, não responde no calor.

— E depois?

— Depois a gente olha o contrato, vê o que a gente fez, entende se tem razão pra criticar.

— E se não tiver?

— A gente explica com calma. Com dados.

— E se tiver?

— Aí a gente assume e corrige.

Camila respirou fundo.

— Você lida bem com isso.

— Não lido. Mas aprendi que reagir na hora só piora. A internet não esquece. Mas também não lê texto longo.

— Então o que a gente posta?

— Um parágrafo curto. Dizendo que a gente revisou o caso, que o trabalho foi só a identidade visual da empresa, não o produto. E que a gente leva sustentabilidade a sério.

Elas escreveram juntas. Postaram. A thread esfriou em dois dias.

Luísa fechou o notebook no fim da tarde. Cancelamento digital era um incêndio. Mas com calma, dava tempo de apagar antes de virar brasa.

*Continua em: 415 — Carlos — Como se retratar publicamente nas redes?*