A confraternização do prédio era no salão de festas. Luísa estava no canto, com um copo de suco na mão, quando a vizinha do 401 se aproximou.
— Luísa! Que bom que você veio.
— Oi, Dona Marta.
A senhora de cabelo branco puxou a cadeira e sentou. A conversa começou leve — o tempo, a planta na sacada, o barulho das obras.
— Você viu a Helena do 202? — Dona Marta disse, baixando a voz.
— Vi ontem no elevador. Parecia bem.
— Dizem que o marido dela arrumou outra.
Luísa segurou o copo com mais força.
— Dizem quem?
Dona Marta hesitou.
— As moças da portaria comentaram.
— E o marido da Helena confirmou?
— Bem... não.
— Então é melhor não espalhar.
Dona Marta franziu a testa, sem jeito. Mudou de assunto e foi embora depois de alguns minutos.
Luísa ficou sozinha na mesa. A noite ainda ia longe. Ela olhou em volta. Lá no canto, a Dona Marta já estava conversando com outra vizinha, a cabeça inclinada, a voz baixa.
Ela terminou o suco, pegou a bolsa e foi até o Carlos, que estava conversando com o síndico.
— Vamos?
— Já? — ele perguntou.
— Já.
No caminho pro elevador, ele percebeu.
— Aconteceu alguma coisa?
— A Dona Marta veio falar da Helena.
— Fofoca?
— Fofoca.
— E você?
— Saí.
Carlos apertou o botão do elevador.
— Fez bem.
— Sei lá. Talvez eu devesse ter ficado e mudado de assunto.
— Mas aí você ia passar a noite ouvindo. Melhor sair.
O elevador chegou. Luísa entrou e deixou a porta fechar. Nem toda conversa merecia a presença dela.
*Continua em: 405 — Carlos — Como reagir a uma abordagem de desconhecido?*