Como se reconciliar com os pais após um afastamento?

Dois anos.

Dois anos sem pisar na casa da Dona Margô.

Não foi um rompimento brutal. Foi um afastamento silencioso, feito de pequenas mágoas acumuladas. Uma discussão sobre o pai, outra sobre o casamento, um comentário infeliz no Natal. E de repente, Luísa deixou de ir.

A mãe ligava. Ela atendia, falava cinco minutos e inventava uma desculpa.

— Você precisa resolver isso — Carlos disse um dia.

— Eu sei.

— O que te impede?

— Orgulho.

— Orgulho de quê?

— De ter esperado tanto. Agora parece mais difícil.

Carlos sentou na frente dela.

— Não precisa ser uma conversa grande. Só precisa ser uma conversa sincera.

— E se ela não aceitar?

— Aceitar o quê? Você é filha dela.

Luísa passou uma semana pensando. Escreveu mensagens e apagou. Ligou e desligou antes de completar.

No sábado, ela apareceu na porta da mãe sem avisar.

Dona Margô abriu. O espanto durou um segundo. Depois os olhos encheram.

— Filha.

— Mãe.

— Entra.

Luísa entrou. A casa estava do mesmo jeito. O cheiro de café. A toalha de crochê. A foto do pai na estante.

— Senta — Dona Margô disse.

Luísa sentou. Não sabia por onde começar.

— Mãe, eu sinto muito.

— Sente o quê?

— Por ter sumido.

Dona Margô sentou na cadeira da frente.

— Você não sumiu. Você se afastou. É diferente.

— A senhora tá brava?

— Tô. Mas tô mais feliz de você ter vindo.

As duas ficaram em silêncio. Foi Dona Margô quem quebrou.

— Eu errei também.

— A senhora?

— Falei coisas que não devia. Sobre seu pai. Sobre o casamento. Achei que estava ajudando.

— Eu sei.

— Desculpa.

— Também desculpa.

Elas se abraçaram. Não foi um abraço de cinema, coreografado. Foi um abraço duro, de dois corpos que não se encontravam há muito tempo. Mas foi real.

Dona Margô enxugou o olho.

— Vou fazer café.

— Deixa que eu faço.

Luísa foi pra cozinha. Abriu o armário e pegou a cafeteira, como se nunca tivesse saído.

*Continua em: 403 — Lidar com fofocas sobre amigos*