Carlos estava no escritório quando o telefone tocou. Dona Lúcia.
— Filho, você vem almoçar domingo?
— Vou, mãe.
— Traz a Luísa. E o Pedro.
— Vou.
— E traz também aquela farofa que você gosta.
— A senhora não precisa cozinhar.
— Gosto de cozinhar. É meu jeito de cuidar.
Carlos desligou e ficou pensando. Ele ligava pra mãe uma vez por semana. Visitava a cada quinze dias. Mas era sempre ela que iniciava.
— Quando foi a última vez que eu liguei primeiro? — ele perguntou pra Luísa.
— Não lembro.
— Pois é.
Carlos colocou um lembrete no celular: "Ligar pra mãe — toda quarta."
Na quarta, ele ligou.
— Mãe.
— Filho? Que surpresa.
— Liguei pra saber como a senhora tá.
— Eu tô bem. Você nunca liga no meio da semana.
— To começando agora.
Dona Lúcia riu.
— Que bom.
Ela contou da novela, do jardim, da vizinha que mudou. Carlos ouviu. Não era uma conversa importante. Mas era o que ela precisava.
No domingo, ele chegou na casa dela com uma muda de orquídea.
— Trouxe isso.
— Planta? Pra quê?
— Pra senhora cuidar. E pra lembrar de mim quando eu não ligar.
— Não preciso de planta pra lembrar de você.
— Mas a planta vai ficar bonita na janela.
Ela colocou a orquídea na pia e abriu um sorriso que iluminou a cozinha.
— Senta que o almoço tá quase pronto.
Carlos sentou. Toby deitou aos pés dele. E ele percebeu que cuidar dos pais depois de adulto não era sobre grandes gestos. Era sobre aparecer. Sobre ligar. Sobre estar presente.
*Continua em: 402 — Luísa — Se reconciliar com os pais após afastamento*