Como demonstrar amor pelos pais na vida adulta?

— Quando foi a última vez que você falou "eu te amo" pra sua mãe?

Camila fez a pergunta enquanto mexia no café.

— Não lembro — Luísa respondeu.

— Pois eu lembro. Eu nunca falei.

A frase ficou no ar. Luísa ficou pensando.

Não que ela não amasse a mãe. Ama. Mas falar? Não era natural na família delas. O amor sempre foi demonstrado em ações: a marmita deixada na portaria, o casaco emprestado, a cama arrumada.

Mas palavras?

— Será que ela precisa ouvir? — Luísa perguntou.

— Toda mãe precisa ouvir.

Naquela noite, Luísa ligou pra Dona Margô.

— Oi, filha. Tudo bem?

— Tudo.

— Você tá com voz estranha.

— To bem. Só queria falar uma coisa.

— Fala.

— Eu te amo.

Silêncio.

— Mãe?

— To aqui.

— Escutou?

— Escutei.

Outro silêncio. Menor.

— Eu também te amo, filha. Muito.

— Eu sei. Mas precisava falar.

— Precisava mesmo?

— Precisava.

Dona Margô riu, um riso molhado.

— Obrigada.

— De nada, mãe.

Elas ficaram mais um tempo no telefone, falando de coisas banais — a conta de luz, o bolo que a mãe ia fazer, o Toby. Mas a frase ficou pairando.

No sábado, Luísa apareceu na casa da mãe com um buquê de flores do mercado. Nada caro. Mas com um bilhete:

*"Pra mãe mais amada. Desculpa demorar 28 anos pra falar."*

Dona Margô leu, dobrou o papel e guardou na gaveta da cozinha.

— Vou guardar pra sempre — ela disse.

— Não precisa guardar. A senhora pode jogar fora.

— Não vou.

E colocou as flores no vaso. E sorriu.

*Continua em: 401 — Carlos — Cuidar da relação com os pais depois de adulto*