Como lidar com a comparação familiar?

— O Beto comprou um carro novo.

Dona Lúcia disse aquilo como quem conta o tempo. Mas Carlos sabia que não era só informação.

— Que bom pra ele.

— É um SUV. Preto. Bonito.

— Mãe, parabéns pro Beto.

— É que eu fico pensando... você não quer trocar de carro?

— O meu carro funciona.

— Mas o do Beto é novo.

— O meu é pago.

Dona Lúcia fez um silêncio. Carlos sentiu o peso da comparação. Não era a primeira vez. A vida inteira ele ouviu: "O Beto passou no vestibular." "O Beto já tem casa própria." "O Beto deu um neto."

Ele nunca competiu com o irmão. Mas a família competia por ele.

No almoço de domingo, a comparação veio de novo.

— O Beto foi promovido — o tio comentou.

— Que bom — Carlos disse, servindo arroz no prato.

— E você, hein? Quando vai ser o gerente?

Carlos colocou a colher no prato.

— Tio, fico feliz pelo Beto. Mas não gosto quando comparam a gente.

— Não tô comparando, tô perguntando.

— Tá comparando.

O tio ergueu as mãos.

— Tá bom, tá bom.

— Não precisa ficar de mal. Só prefiro que a gente comemore o Beto sem diminuir ninguém.

A mesa ficou em silêncio. Beto olhou pro Carlos.

— Ele tem razão — Beto disse. — Já pensou se fosse ao contrário?

O tio não respondeu. Mas parou de comparar.

No fim, Beto puxou Carlos na cozinha.

— Você não precisa se explicar, mano.

— Eu sei. Mas cansa.

— Cansa. Mas você falou. Eu nunca falo.

— É porque você é o comparado positivo.

Beto riu.

— É, mas também cansa. Ser exemplo é solitário.

Os dois riram. E pela primeira vez, a comparação virou conversa.

*Continua em: 400 — Luísa — Demonstrar amor pelos pais na vida adulta*