Como cortar relação com um familiar?

A mensagem chegou de madrugada. Mais um textão. Mais uma enxurrada de acusações.

Luísa leu uma vez. Leu de novo. Colocou o celular no criado-mudo e ficou olhando o teto.

— Quem era? — Carlos perguntou, sonolento.

— Minha tia.

— De novo?

— De novo.

A tia Valquíria era um furacão. Desde que Luísa não foi no aniversário da prima (tinha trabalhado até tarde), a tia mandava mensagens toda semana. Cada pior que a outra. "Você se acha." "Esqueceu de onde veio." "Seu pai ia ter vergonha."

— Ela não vai parar — Carlos disse.

— Eu sei.

— O que você vai fazer?

— Não sei.

Luísa passou o dia com a mensagem na cabeça. Ela pensou em responder, explicar, defender. Mas toda vez que escrevia algo, apagava. Nada ia mudar a cabeça da tia.

No fim do dia, ela tomou uma decisão.

— Vou bloquear.

— Você tem certeza?

— Não. Mas vou fazer mesmo assim.

— Por quê?

— Porque toda vez que vejo o nome dela, passo mal. Não dá mais.

Ela bloqueou o número. Depois saiu do grupo da família onde a tia estava. Depois mandou uma mensagem privada pra mãe:

*"Mãe, bloqueei a tia Val. Não aguento mais. A senhora entende?"*

A resposta veio rápida:

*"Entendo, filha. Cuida de você."*

Luísa desligou o celular e sentiu um peso que não sabia que carregava. Não foi alívio. Foi uma tristeza calma.

— Como você tá? — Carlos perguntou.

— Não sei. Triste.

— Triste é melhor do que mal.

— É.

Ela deitou no colo dele. Não precisava falar mais nada.

*Continua em: 399 — Carlos — Lidar com a comparação familiar*