— Seu primo tá aqui.
Carlos parou de cortar a cenoura. Largou a faca e foi até a sala.
O tio Maurício estava sentado no sofá, perna cruzada, mexendo no celular. Não levantou quando Carlos entrou.
— Tio.
— Oi.
— O que o senhor veio fazer?
— Passar aqui. Sua mãe disse que você tava precisando de ajuda com a cerca.
— A cerca já tá arrumada.
— Então beleza.
O tio continuou no celular. Carlos sentou na poltrona.
— Tio.
— Oi?
— O senhor não me olha quando fala comigo.
— Tô ouvindo.
— Não é a mesma coisa.
O tio ergueu a cabeça, contrariado.
— O que você quer?
— Queria que o senhor me tratasse com respeito. Quando chega, cumprimenta. Quando fala, olha. Não é difícil.
— Desde quando você é tão sensível?
— Não é sensibilidade. É educação.
O tio riu, um riso seco.
— Seu pai era mais moleque que você.
— Meu pai não tá aqui. Mas eu tô.
O clima pesou. O tio guardou o celular no bolso.
— Tá bom. Respeito.
— Obrigado.
O tio ficou mais meia hora, mas o tratamento mudou. Perguntou do trabalho. Do Pedro. Da Luísa.
Quando ele foi embora, Luísa apareceu na porta.
— Você falou.
— Falei.
— E funcionou?
— Mais ou menos. Mas pelo menos ele ouviu.
— É um começo.
— É.
Carlos voltou pra cozinha. A cenoura ainda esperava. Ele cortou, pensando que às vezes o respeito não vem de graça. A gente precisa pedir.
*Continua em: 398 — Luísa — Cortar relação com um familiar*