A ligação da Dona Margô era sempre no mesmo horário. Seis e meia da tarde, durante o jantar.
— Filha, você já pensou naquilo que eu falei?
— O quê, mãe?
— Sobre o casamento. Vocês estão juntos há três anos. Quando vão marcar a data?
Luísa colocou o garfo no prato. A comida perdeu o gosto.
— Mãe, a gente não tem pressa.
— Mas eu quero ver minha filha casada. Seu pai não tá aqui, mas eu quero estar.
— A senhora vai estar. Mas não agora.
— E quando?
— Quando a gente decidir.
O tom de Luísa saiu mais seco do que ela queria. Dona Margô ficou em silêncio.
— Tá bom, filha. Depois a gente fala.
Desligaram. Luísa apoiou o celular na mesa e colocou a mão no rosto.
— De novo? — Carlos perguntou.
— De novo.
— O que você quer fazer?
— Não sei. Eu sei que ela ama. Mas parece que não confia que a gente sabe o que tá fazendo.
— Talvez ela precise ouvir que você ouviu.
— Como assim?
— Que você entende o que ela quer. Mas que a decisão é sua.
Luísa pensou. Na semana seguinte, ela ligou pra mãe com outra abordagem.
— Mãe, eu sei que a senhora quer meu bem. Sei que quer ver a filha casada. Mas quando a senhora pergunta toda semana, parece que a senhora não confia em mim.
— Confio.
— Então confia que a gente vai saber a hora certa.
Silêncio.
— Tá bom, filha. Vou parar de perguntar.
— Não precisa parar. Só perguntar menos.
Dona Margô riu.
— Combinado.
Luísa desligou mais leve. A pressão não tinha sumido. Mas tinha virado um fio que dava pra segurar.
*Continua em: 395 — Carlos — Lidar com pais separados*