Carlos olhou a planilha do orçamento e suspirou. A parcela do cartão, o condomínio, a fatura da luz. E o dinheiro que o primo Júlio não devolvia.
— Três meses — ele disse pra Luísa.
— O quê?
— Três meses que ele pediu emprestado. Disse que era uma semana.
— Você já cobrou?
— Mandei mensagem mês passado. Ele disse que ia pagar. Não pagou.
— E agora?
— Agora não sei. Se eu cobrar de novo, vou ficar mal na família.
— E se você não cobrar?
— Vou ficar devendo pra mim mesmo.
Carlos passou o dia pensando. Toda hora ele pegava o celular, abria a conversa e desistia.
No sábado, ele viu o primo no churrasco. Júlio estava na pia, lavando as mãos.
— Júlio.
— Opa.
— Preciso falar uma coisa.
— Fala.
— Sobre aquele dinheiro.
O primo fechou a torneira. O silêncio durou um segundo.
— É, tô devendo, né.
— Não tô cobrando agora. Mas eu preciso de um prazo. Organizar minhas contas.
— Entendo.
— Pode me pagar até o fim do mês que vem?
Júlio enxugou as mãos no short.
— Fim do mês que vem eu consigo. Pode ser dia 30?
— Pode.
— Valeu, primo. Desculpa a demora.
Carlos respirou fundo e voltou pro churrasco. A conversa durou menos de um minuto. Mas ele tinha passado três semanas remoendo.
— E aí? — Luísa perguntou quando ele sentou.
— Resolvido.
— Como?
— Perguntei.
— Só isso?
— Só isso.
— E por que você demorou tanto?
— Porque a gente acha que cobrar familiar é briga. Mas não é. É só perguntar.
*Continua em: 394 — Luísa — Lidar com a pressão familiar*