A conta chegou na mesa. O garçom colocou a pasta de couro no centro, entre os pratos vazios e as taças de vinho.
— Vou pegar — Carlos disse, esticando o braço.
— Espera — Beto cortou. — A gente divide.
— Não precisa — Dona Lúcia disse. — Eu pago.
— Mãe, a senhora não vai pagar — Carlos respondeu.
Luísa sentiu o desconforto crescer. Todo mundo falando ao mesmo tempo, ninguém resolvendo. A pasta da conta ficou ali, no centro da mesa, como um objeto quente que ninguém queria tocar.
— Gente — ela disse. — Vamos fazer o seguinte.
Todos olharam.
— Cada casal paga o seu. Assim ninguém fica devendo, ninguém paga a mais, ninguém se sente mal.
— Mas a gente veio junto — Beto argumentou.
— A gente comeu junto. Mas cada um pediu o que quis. O Carlos tomou dois copos de vinho e comeu filé. O Pedro comeu batata frita. Não faz sentido ratear igual.
— Ela tem razão — a esposa do Beto disse.
O garçom voltou. Luísa pediu a conta separada. O garçom anotou, voltou com duas folhas.
Dona Lúcia olhou o papel.
— Cinco reais de couvert. Isso é taxa?
— É o pão, mãe — Carlos disse.
— Cinco reais num pãozinho.
Todo mundo riu. O desconforto passou.
No carro de volta, Carlos disse:
— Você salvou a mesa.
— Alguém precisava.
— É que na minha família ninguém sabe falar de dinheiro.
— Na minha também. Mas alguém precisa começar.
— Pois é. Hoje foi você.
Ela olhou pela janela e sorriu. A conta estava paga. E todo mundo saiu feliz.
*Continua em: 393 — Carlos — Pedir a familiar que está te devendo um prazo para pagar*