Luísa estava no escritório, tarde da noite, cercada de provas. O projeto novo estava matando ela. Três dias sem dormir direito, olheiras profundas, café frio na caneca.
O celular vibrou. Mensagem da Dona Margô:
*"Passei aí hoje. Deixei uma quentinha na portaria. É strogonoff, seu favorito. Não fica acordada até tarde, filha."*
Luísa leu três vezes.
Ela não tinha avisado a mãe que estava sobrecarregada. Não tinha reclamado. Mas a mãe sabia. Sempre sabia.
— A Dona Margô deixou comida — ela disse pro Carlos, que estava no sofá com o notebook.
— Ela faz isso.
— Eu sei. E eu nunca agradeço direito.
— Você agradece.
— Agradeço por mensagem. Um "obrigada" seco. Não é suficiente.
Carlos olhou pra ela.
— O que você quer fazer?
— Não sei. Alguma coisa que mostre.
No sábado, Luísa apareceu na casa da mãe com um caderno. Não era um presente caro. Era um caderno de receitas, em branco, com a capa dura.
— O que é isso? — Dona Margô perguntou.
— A senhora vai escrever todas as receitas que faz. As que a senhora me deu a vida inteira. O strogonoff, o bolo de cenoura, o arroz de forno.
— Pra quê?
— Pra eu ter. Pra passar pro Pedro um dia.
Dona Margô segurou o caderno com as duas mãos.
— Você não precisava.
— Precisava, sim. A senhora me alimentou a vida inteira. Literalmente. Esse caderno é pouco.
Dona Margô abriu a primeira página e escreveu a lápis: "Strogonoff da Margô".
— Vou encher ele todo — ela disse.
— Pode encher devagar. A senhora tem tempo.
O abraço veio sem aviso. E Luísa sentiu, pelo aperto, que a mãe tinha entendido.
*Continua em: 389 — Carlos — Fortalecer laços familiares no dia a dia*