— A prima Fernanda se separou — Dona Lúcia disse, a voz baixa no telefone.
Carlos parou de cortar a cebola.
— Quando?
— Mês passado. Ela não tava contando pra ninguém.
— E as crianças?
— Tão com ela. Mas ela tá sozinha, filho. Precisando de ajuda.
Carlos apoiou a faca na tábua. Prima Fernanda era uma figura distante — viajava todo Natal, mandava presente pro Pedro, perguntava da vida. Mas ele nunca tinha feito muito por ela.
— O que a senhora acha que a gente pode fazer?
— Não sei. Ela não pede ajuda. Nunca pediu.
— Então a gente não pergunta. A gente faz.
No sábado, Carlos apareceu na casa da prima com uma marmita. Strogonoff que a Luísa fez, arroz, batata palha. Bateu na porta e entregou.
— Trouxe jantar.
— Ah, Carlos, não precisava.
— Sei que não. Mas tava aqui perto.
Ela aceitou. A casa estava bagunçada, brinquedo no chão, louça na pia. As crianças assistiam TV de pijama.
— Quer entrar?
— Claro.
Carlos sentou no sofá. O filho mais novo, de uns quatro anos, veio mostrar um carrinho. O mais velho, de oito, ficou no canto.
— Ele tá mais calado — Carlos observou.
— A separação pegou mal. Ele era muito apegado ao pai.
— Vim aqui semana que vem de novo. Posso trazer o Pedro. Eles se dão bem.
Fernanda segurou o choro.
— Não precisa.
— Eu sei que não precisa. Mas quero.
Nas semanas seguintes, Carlos virou rotina. Levava jantar, trazia Pedro pra brincar, ajudava com a reforma da cerca. Nunca perguntava da separação. Só estava presente.
Um dia, Fernanda mandou uma mensagem:
*"Você não faz ideia do quanto me ajudou. Obrigada por não ter perguntado."*
Carlos leu e guardou o celular. Não respondeu. Não precisava.
*Continua em: 388 — Luísa — Agradecer à família por todo o apoio*