Como educar a família sobre respeito às diferenças?

Luísa ouviu antes de ver. A voz do Beto veio da sala, alta, seguida de uma risada.

— Imagina, um menino de 10 anos brincando de boneca.

O sangue subiu. Ela largou a travessa na pia e foi até a sala.

— O que você disse?

Beto olhou pra ela, surpreso.

— Tava falando de um sobrinho do meu amigo.

— Eu ouvi. E não gostei.

— Foi brincadeira.

— Não foi engraçada.

O clima pesou. Dona Lúcia apareceu na porta. Carlos também.

— O que houve? — Carlos perguntou.

— Seu irmão acha engraçado menino brincar de boneca — Luísa respondeu.

— É o que esse povo ensina hoje em dia — Beto resmungou.

Luísa respirou fundo. Ela sentou na ponta do sofá.

— Beto, o Pedro tem 10 anos. Se ele um dia quiser brincar de boneca, você vai rir dele?

— Com o Pedro é diferente.

— Por quê?

— Porque ele é da família.

— Então você consegue respeitar quem é da família, mas não quem não é?

Beto ficou em silêncio. Luísa continuou.

— Toda criança merece brincar do que quiser. Não é sobre ensinar. É sobre não podar.

Carlos colocou a mão no ombro da Luísa.

— Ela tem razão, Beto.

Beto coçou a nuca.

— Tá bom. Foi sem maldade.

— Eu sei — Luísa disse. — Mas a maldade não tá na intenção. Tá no efeito.

O silêncio durou uns segundos. Depois Beto levantou.

— Vou ali pegar mais cerveja.

Não foi uma grande conversa. Mas Luísa sabia que a semente tinha sido plantada. E que regar era um trabalho de todo dia.

*Continua em: 387 — Carlos — Apoiar mãe solteira na família*