O grupo da família no WhatsApp explodiu. Carlos colocou o celular no mudo e virou a tela contra a mesa.
— De novo? — Luísa perguntou, sem levantar os olhos do notebook.
— Meu tio mandou um áudio de seis minutos.
— Sobre?
— Política. Sempre a mesma coisa.
Carlos passou a mão na nuca. Ele não queria discutir. Mas também não queria ficar calado. Toda vez que o tio postava alguma coisa, a família se dividia. Uns concordavam, outros rebatiam, e no fim ninguém jantava feliz.
— Por que você não sai do grupo? — Luísa sugeriu.
— Aí eles vão achar que é porque não concordo.
— E não é?
— É. Mas não é por isso que eu vou sair. É porque discutir não muda nada. Cada um já tem a opinião formada.
— Então você quer mudar de estratégia.
— Quero.
Carlos pensou. No almoço seguinte, o tio começou de novo.
— Viram a notícia hoje?
Carlos respirou fundo.
— Tio, eu queria conversar com o senhor sobre outra coisa.
— O quê?
— O senhor viu que o Pedro ganhou a medalha de ouro na feira de ciências?
O tio parou. A atenção desviou. Carlos mudou o assunto e manteve a conversa no que importava — o sobrinho, a família, o presente.
No caminho de volta, Luísa comentou:
— Você não discutiu.
— Não.
— Funcionou.
— Por enquanto.
— E se ele voltar?
— Eu ensino pro Pedro um truque de mágica. Aí toda vez que o tio começar, o Pedro faz o truque.
Luísa riu.
Não resolveu o problema. Mas resolveu o almoço.
*Continua em: 386 — Luísa — Educar família sobre respeito às diferenças*