O almoço de domingo na casa de Dona Lúcia estava animado até o primo Eduardo aparecer com o novo namorado.
— Gente, esse é o Rafael.
Silêncio.
Não foi um silêncio agressivo. Foi aquele silêncio de quem não sabe o que dizer. Dona Lúcia olhou, piscou, e voltou a mexer a panela. Beto segurou o copo com força. A esposa do Beto deu um sorriso amarelo.
Luísa viu tudo. Eduardo também viu.
— Senta aqui, Rafael — Luísa disse, puxando uma cadeira. — Tá com sede?
O rapaz sentou, aliviado.
O almoço continuou. As perguntas foram surgindo devagar. Beto perguntou onde Rafael trabalhava. Dona Lúcia perguntou se ele gostava de carne assada. A Clarinha, que tinha chegado atrasada, simplesmente puxou conversa sobre filmes.
No fim da tarde, Luísa encontrou Dona Lúcia na cozinha.
— A senhora ficou sem graça.
— Fiquei — Dona Lúcia admitiu. — Não é todo dia.
— A senhora tratou bem.
— Tratei. Mas demorei pra reagir.
— A senhora reagiu. Isso é o que importa.
Dona Lúcia lavou um prato devagar.
— Eu quero que ele se sinta bem aqui. Todos eles.
— Então trate como trata qualquer um. Pergunte da vida, ofereça café, conte uma história. Não precisa de discurso. Só de acolhimento.
No domingo seguinte, Eduardo e Rafael voltaram. Dona Lúcia já tinha um copo de água posto na mesa pro Rafael. E um pedaço de bolo de fubá.
— Prove — ela disse. — Minha receita.
Rafael provou. Sorriu.
— Tá uma delícia, dona Lúcia.
Ela sorriu de volta. E não precisou de mais nada.
*Continua em: 385 — Carlos — Lidar com diferenças políticas na família*