Carlos estava no shopping, parado em frente a uma loja de brinquedos. O celular vibrou no bolso. Era a Clarinha.
— Achou alguma coisa?
— Tem muito brinquedo. Não sei o que pegar.
— Ele tem seis anos. Qualquer coisa que faça barulho, ele ama.
Carlos riu. Mas o problema não era o brinquedo. Era o que vinha junto.
No último aniversário, ele tinha dado um videogame portátil pro sobrinho. O menino ficou uma semana sem largar. A cunhada ligou, sem graça, dizendo que ele não dormia direito, que só queria saber do jogo. Carlos se sentiu mal. Não era presente. Era concorrência.
— O problema não é dar presente — ele disse pra Clarinha. — É dar sem atrapalhar.
— Atrapalhar como?
— Se eu dou algo que os pais não aprovam, vira problema. Se eu dou algo muito caro, vira comparação. Se eu dou algo que ele só usa comigo, vira exclusividade.
— Você pensa demais.
— É meu sobrinho. Eu quero ajudar, não competir.
Clarinha ficou em silêncio.
— Então dá algo que ele possa fazer com os pais. Um jogo de tabuleiro. Uma bola. Algo que una, não separe.
Carlos mudou de loja. Comprou um jogo de memória infantil com animais. Coisa simples, colorida, que o menino podia jogar com o pai e a mãe.
No sábado, ele entregou. O sobrinho abriu na sala, com os pais olhando.
— Vamos jogar? — o menino perguntou pra mãe.
— Vamos — ela respondeu, com um sorriso que Carlos entendeu como aprovação.
Ele sentou no sofá e viu os três jogando. Não precisava ser o centro. Só precisava fazer parte.
*Continua em: 384 — Luísa — Lidar com diversidade dentro da família*