O almoço de família era na casa da tida-avó, uma senhora de oitenta anos que morava num sobrado antigo no centro. Luísa vestiu um vestido azul marinho que ela adorava. Cabelo solto. Brincos pequenos.
Assim que entrou, a tia Madalena olhou da cabeça aos pés.
— Que vestido curto, menina. Numa friagem dessa?
Luísa sorriu sem responder.
Na mesa, a conversa seguiu. A tia Madalena comentou sobre a prima que tinha casado, sobre o primo que tinha passado no concurso, sobre o neto que tinha tirado nota dez em matemática. Em certo momento, olhou pra Luísa.
— E você, continua nessa coisa de designer?
— Continuo.
— E dá dinheiro?
— Dá.
— É… cada um com sua sorte.
Luísa sentiu o estômago apertar. Não era a primeira vez. A tia sempre dava um jeito de diminuir as escolhas dela.
Carlos, ao lado, apertou a mão dela por baixo da mesa.
Depois do almoço, na cozinha, ajudando a lavar a louça, Luísa encontrou a Dona Margô.
— Não liga pra sua tia — a mãe disse. — Ela é de outra época.
— Não ligo. Mas incomoda.
— Incomoda porque você quer aprovação de quem não pode te dar.
Luísa passou a esponja no prato.
— É que parece que tudo que eu faço é errado pra ela.
— Não é errado. É diferente. E gente que viveu num mundo pequeno tem dificuldade de entender escolhas que fogem do roteiro.
— E o que eu faço?
— Continua vivendo. Não precisa convencer ninguém.
No caminho de volta, no carro, Carlos disse:
— Você foi muito elegante.
— Não revidei porque não vale a pena. Mas me doeu.
— Eu vi. Mas você não deixou transparecer.
— Aprendi que julgamento alheio diz mais sobre quem julga do que sobre quem é julgado.
— Então dói menos?
— Dói. Mas passa.
Ela encostou a cabeça no vidro do carro. O julgamento dos outros não sumia. Mas o peso que ela dava pra ele, esse sim, podia ser menor.
*Continua em: 383 — Presentear sobrinhos sem competir*